7 de out de 2011

Crônica - Fernanda Torres

Gente, procurando textos legais na internet, para contemplar meus leitores com algo leve, interessante e engraçado nessa sexta-feira, deparei-me com uma coluna da Fernanda Torres na página da Veja Rio. Foi nesse site também que encontrei um texto do Manoel Carlos que postei aqui no blog outro dia.
Essa crônica da Fernanda, sobre o tempo que nós mulheres temos que ter para dar conta de tudo, é muito legal. Aliás, não é uma questão só de tempo meus amigos, mas de paciência (muita), boa vontade e perseverança, hehe... Depois de lerem vocês vão entender sobre o que estou falando...
Outra coisa, graças aos comentários aqui no blog da Lia e da Taty, acabei decidindo ler o romance O Tempo Entre Costuras da María Dueñas, que ganhei da Vevé de aniversário. Depois venho falar mais sobre ele.
Então, um fim de semana maravilhoso pra todos vocês, cheio de luz, harmonia, paz e paciência (hehe)...

Crônica Tempo, tempo, tempo da Fernanda Torres:

Duas horas e quarenta minutos. No relógio. Foi quanto eu levei para completar a terceira sessão de depilação definitiva.
O dia não havia começado promissor.
Às 9 da matina daquela sexta-feira, eu já me encontrava sentada na cadeira da dentista. Acreditei que na segunda consulta concluiria a contenção da arcada inferior, algo que eu estava adiando havia mais de ano com a ajuda de um aparelho de dentes que eu esqueci no avião. Reagi com espanto à notícia de que o fio pré-moldado não se encaixava corretamente. Tentei negociar uma forma de me livrar de uma terceira visita ao 7º andar da Siqueira Campos, mas foi em vão.
Meu destempero deixou as duas doutoras discretamente boquiabertas. Como explicar que não sobra tempo? Que, fora o trabalho e a família, a idade aumenta a necessidade de rotinas de saúde e beleza, o que congestiona ainda mais a vida curta?
A dermatologista, eficientíssima, que se esmerou por duas horas e quarenta no comando do incinerador de pelos a laser, contou que, certa vez, receitou uma lista de cuidados para um senhor que sofria de uma coceira causada por ressecamento cutâneo. Ao ler o tratado, o paciente deu uma pausa e respondeu com mesura que, para executar o protocolo a contento, teria de acordar às 4 da matina, todos os dias, antes de ir trabalhar. “E isso é uma coisa que, vamos combinar, não vai acontecer.”
Quanto mais vivido o cidadão, mais revisões ele deve fazer. É difícil dar conta. Quando eu era jovem, tinha medo de ir mal na prova da escola. A maturidade me trouxe um receio ainda pior, o de ser reprovada no exame de sangue.
Embora frívolos, os cuidados cosméticos não ficam a dever em termos de obrigatoriedade.
É possível ser hippie até os 30 anos, depois complica. Se você é mulher, complica muito. Os cabelos brancos são um divisor de águas, o momento decisivo de se tornar, ou não, uma mulher bem tratada. Para sê-lo, saiba que uma boa parte da sua passagem na Terra será gasta com cutículas e raízes aparentes.
Sempre fugi de salão de beleza. Fico exasperada com o tempo gasto em cortar, pintar, fazer unha, escova… Talvez por executar esse ritual constantemente na minha profissão eu tenha desenvolvido essa aversão quando estou à paisana, mas desconfio que não agüentaria mesmo se fosse veterinária ou cozinheira.
Fora o tédio, a aplicação da tintura provoca queda na autoestima. É um terrível efeito colateral.  Nenhuma mulher deveria ser vista com o cabelo empastelado de amônia, perfume e pigmento, é feiís­simo. Para dar resultado, fica-se uma boa hora diante do espelho nesse estado monstruoso e exalando um cheiro meio bom, meio ruim. É um exercício de desapego digno de um monge budista. Igualmente humilhantes são as sessões depilatórias.
No fim da interminável recauchutagem, a sensação de égua tratada realmente não tem preço, mas o custo em segundos é incalculável.
Quando optei por não me deixar largar, criei a ilusão de que conseguiria ocupar as tardes nos salões de maneira produtiva. Carreguei computador e livros e me instalei na bancada. Pra quê?
Não conheço cristão que resista à tara por revistas de moda e fofoca no cabeleireiro. É a literatura ideal, não tem outra. Curiosamente, em ambientes menos fúteis, como as antessalas dos especialistas em medicina, também impera esse tipo de publicação. É corpo são e mente em compasso de espera.
Talvez por ter me exasperado mais do que queria na dentista, enfrentei sem muxoxo as duas horas e quarenta de gelo, ar refrigerado e agulhadas lancinantes poros adentro. A promessa de me livrar da intimidade excessiva com moças que eu mal conheço, munidas de cera quente, me segurou na maca.
Sigo resignada. Não tem jeito. É daí para pior. Otimizar é a palavra de ordem.
Juntei o check-up do ginecologista com o do clínico geral. É tanto teste que eu nem sei quanto tempo vão demorar para me virar do avesso. Faço uma escova razoável em mim mesma e já não queimo o pescoço quando piloto o baby liss.
Eu me esmero na tentativa de executar breves paradas no boxe, seguidas de uma longa corrida.

6 comentários:

  1. A D O R E I !!! Não sabia que ela era boa de crônica. Me identifiquei total amiga! Ai, ai... faz 1 ano e 11 meses que a minha fase de hippie passou... mas me considero "repetente"... hihihi!!! Vou curtir meus últimos dias de hippie antes que a obrigação invada a porta... sim, porque ela já bateu há muito tempo!!! Beijos, beijos, beijos... Amei seu comentário da minhoca no meu blog, é isso mesmo, se tem minhoca não tem agrotóxico! Hehehehe!!!

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  2. Sabia que tu ia gostar!!! Quero ser hippieeeeeeeeeeeee... Ainda bem que cabelos brancos não tenho, pelo menos um gasto e uma "catinga" de tinta a menos, hahahaha...

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  3. Muito bom o texto, adorei essa parte: "Quando eu era jovem, tinha medo de ir mal na prova da escola. A maturidade me trouxe um receio ainda pior, o de ser reprovada no exame de sangue." Tudo a ver...rs..bjs

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  4. Eu também não conhecia esse lado da Fernanda Torres, mas amei meninas... Infelizmente depois do 30 acabou nosso lado hippie!!! Antes a única preocupação fosse só a escola...

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  5. Oi "Quase Chará" meu nome é Aline! Tb tenho um blog sobre livros. Cai aqui meio que de para-quedas e gostei do seu blog!!
    Bjos

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  6. Que maravilhosas as descobertas que fiz aqui, voltarei outras vezes.

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